A inteligência artificial distribui esperança em escala industrial. O problema é que ela dissemina esperança com muito mais facilidade do que reparte poder.
Um estudo global recente mostra que o entusiasmo com a tecnologia é maior em partes da África, da Ásia e da América Latina. Já a América do Norte e a Europa Ocidental exibem mais cautela.
À primeira vista, o dado soa animador para quem está na periferia da economia digital. Mas percepção favorável e benefício estrutural são categorias bem diferentes.
Confundir as duas custa caro, principalmente a países que ainda tentam converter inclusão digital em desenvolvimento econômico real. É esse o alerta que a geografia do otimismo com a IA levanta.
A geografia do entusiasmo importa porque revela onde a tecnologia surge como debate estratégico e onde ela aparece como atalho. Em economias maduras, a IA entra cercada de infraestrutura robusta, capital abundante e cadeias produtivas sofisticadas.
Em países emergentes, a promessa é outra. A tecnologia surge como recurso para compensar deficiência educacional, ampliar renda, enxugar custo e preencher lacunas institucionais.
Esse otimismo tem racionalidade econômica concreta. A América Latina concentra 14% das visitas globais a soluções de IA, mas recebe só 1,12% do investimento global na tecnologia, apesar de responder por 6,6% do PIB mundial.
O apetite existe. O capital que organiza a próxima etapa, em larga medida, fica em outro lugar. Entender esse descompasso é parte do valor real da IA além do discurso de futuro.
É a mesma disputa que aparece na corrida pelos chips, onde poucos países controlam a infraestrutura que sustenta toda a cadeia.
O risco central do otimismo desorganizado é transformar a IA de promessa de autonomia em dependência sofisticada. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento já alertou que os países entram na era da IA a partir de posições muito desiguais de capacidade.
Sem ação política forte, segundo o PNUD, essas lacunas podem crescer e até reverter a longa tendência de redução das desigualdades de desenvolvimento. O consumo da tecnologia avança rápido, enquanto a apropriação do valor permanece concentrada.
A pergunta relevante, então, nunca foi quem acredita mais na IA. A pergunta é quem está em posição de converter crença em capacidade produtiva, capacidade institucional e retorno econômico duradouro.
Países emergentes precisam de mais do que usuários hábeis e consumidores entusiasmados. A agenda para converter crença em capacidade produtiva é concreta:
É por isso que adotar a tecnologia dentro das empresas exige uma nova gestão, capaz de transformar acesso em competência instalada, e não apenas em consumo.
“Entusiasmo sem estratégia rende aplauso por alguns meses. Estratégia sem submissão tecnológica define quem participa do futuro como autor e quem, apenas, o aluga.” Norberto Maraschin Filho, vice-presidente de Negócios de Consumo e Mobilidade da Positivo Tecnologia
A leitura de Norberto Maraschin Filho, vice-presidente de Negócios de Consumo e Mobilidade da Positivo Tecnologia, foi desenvolvida em sua coluna no Olhar Digital.
O recado para o Brasil é direto. Num mundo em que pensar de forma estratégica virou uma habilidade premium, celebrar a IA não basta. É preciso decidir se o país quer ser autor da tecnologia ou apenas seu inquilino.
É a leitura de como o entusiasmo com a inteligência artificial se distribui pelo planeta. Estudos globais mostram que a percepção positiva é maior em países emergentes da África, Ásia e América Latina, e menor em economias maduras da América do Norte e da Europa.
Porque a tecnologia aparece como atalho para compensar lacunas de educação, renda e infraestrutura. Onde as alternativas são escassas, a IA oferece uma sensação imediata de salto, o que gera adesão rápida mesmo sem controle da infraestrutura que gera valor.
Não necessariamente. Percepção favorável e benefício estrutural são coisas diferentes. A captura de valor tende a se concentrar em quem controla infraestrutura, modelos, dados e capital, não em quem apenas consome a tecnologia com entusiasmo.
A IA pode elevar o crescimento da produtividade regional de 0,4% ao ano para algo entre 1,9% e 2,3% ao ano, adicionando de US$ 1,1 trilhão a US$ 1,7 trilhão por ano em valor econômico, desde que acompanhada de infraestrutura e política industrial.
Investindo em infraestrutura, formação técnica, poder computacional, política industrial, regulação inteligente e capital de longo prazo. Sem essa base, o consumo da tecnologia avança, mas a apropriação do valor permanece concentrada em outros países.